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Sunday, September 23, 2012

Sapus brejeirus




            Sapo é um animal vertebrado da classe dos anfíbios, pertencente à ordem dos batráquios ou anuros (sem cauda no estágio adulto). Variam de dois a 25cm de altura, apresentam corpo abrutalhado e pele coberta de verrugas. Os indivíduos adultos são pardo-escuros, às vezes com manchas. O mais característico dos sapos brasileiros é o sapo-cururu (Bufo marinus), útil ao homem, pois devora insetos que infestam as plantações. Absorvem através da pele produtos químicos da água e do solo e são por isso considerados excelentes indicadores ecológicos da saúde do ambiente.
            Alguns representantes da espécie são célebres, como aquele que foi beijado por uma linda princesa e logo se transformou em um jovem príncipe. E, como num bom conto de fadas, é claro que sua historia terminou com um “e foram felizes para sempre...”.
            E tem também um “muso inspirador” de canções populares: “O sapo não lava o pé, não lava porque não quer, ele mora lá na lagoa, não lava o pé porque não quer, mas que chulé!” Se bem que levar essa fama não deve ser muito agradável. Hoje ninguém sabe se ele ainda mora naquela lagoa ou se seu problema foi resolvido.
            Porém, a espécie mais intrigante e peculiar é a recém descoberta Sapus brejeirus, cujo habitat natural é uma pequena cidade ao norte do estado de Minas Gerais, Brasil. Os brejeiros levam uma vida pacata de interior, vendo a vida passar num ritmo lento e gostoso. Para ajudar a passar o tempo, eles costumam se ocupar da vida alheia, mas geralmente são inofensivos. É uma espécie dócil e amigável, acolhe com hospitalidade indivíduos de outras espécies e regiões.
            Os brejeiros também migram periodicamente. Alguns se adaptam bem a outros climas, outros não. Uns até tentam disfarçar e negar sua raça, mas todos um dia voltam a seu habitat natural.
            Um costume típico desta espécie foi relatado pelos observadores e denominado Farras constantes. É quando muitos Sapus brejeirus se agrupam em um determinado local, produzem um barulho ensurdecedor e se movem de um jeito estranho. As relações sociais são intensas, principalmente entre sexos opostos. Muitos gostam de beber um tipo de destilado ou fermentado.
            Por fim, cientistas observaram nesta bizarra espécie um mecanismo apurado de defesa e, por que não dizer, fraternidade: os brejeiros podem falar mal à vontade de seu habitat natural, mas se algum estranho se atreve... Viram Feras!

(Ana Elisa Miranda - 2007)


            

Saturday, October 8, 2011

Doce Infância




            Eu não quero mudar de quarto. Não quero um quarto novo só meu. Quero dormir com a mamãe! O quarto novo é escuro e tem bicho debaixo da cama. Não consigo dormir sozinho no escuro com um bicho embaixo da minha cama! Por que o neném pode dormir com a mamãe e eu não?
*
            “O horário comum é diferente do horário de verão. O sol acorda cedo. Chegou o horário de verão. No horário de verão nós temos que acordar mais cedo.”
*
            Mamãe deixou eu dormir na camona dela essa noite, mas quando acordei eu estava na minha caminha... Aposto que foi o João Bobão que me pegou de lá (João Bobão é o bicho que mora embaixo da minha cama, por isso eu sempre vou depressa e dou um pulo em cima da cama pra ele não me puxar pelo pé. Mamãe diz que não tem bicho nenhum lá, mas à noite eu escuto ele fazendo barulho).
            Papai me levou pra um lugar chamado escola e me deixou sozinho lá. Tinha um monte de criança lá, mas eu queria ir brincar na casa do meu primo Guto. Ele me disse que agora eu vou ter que ir todo dia lá pra tal de escola. Não sei por que. Vou perder meus desenhos da TV. Mas eu não chorei, porque papai disse que meninos não choram. Então o neném deve ser menina...
*
            “O carneirinho se chama Memé. Memé pula...pula...Um dia Memé estava pulando e caiu na tinta preta. Quando Memé chegou perto de Pedro, Pedro falou: De onde surgiu esse carneirinho preto? Sabe por que ele falou isso? Porque Memé era branquinho... branquinho... ”
*
             O bebê é engraçado. Tem só dois dentinhos. Ontem ele mordeu minha mão e doeu muito. Eu ia morder ele também. Mas papai não deixou. O João Bobão agora é meu amigo e vai pra escola comigo. Lá é até legal porque a gente faz coisas interessantes, mas eu não gosto de ir pra lá todo dia não.
*
           “É primavera. O dia está bonito. O céu azul e o sol a brilhar. Os pássaros cantam, as borboletas voam. As flores ficam bonitas. As árvores verdes e floridas. Abelhinhas voam pra lá e pra cá é a primavera que acabou de chegar.”

(Do livro "Qualquer Dia Desses", por Ana Elisa Miranda)

Friday, December 3, 2010

Perda


Sabia que seria a última vez que olharia em seus olhos. Ele foi meu amor. Ele foi minha vida. Nós tivemos o que a maioria das pessoas passam a vida inteira procurando – amor de verdade, felicidade, companherismo incondicional e confiança. Estivemos  juntos por vinte e sete anos e lá eu estava, sentada ao lado da cama, segurando sua mão e olhando aqueles doces olhos castanhos. Não conversamos. Não precisava. Ambos sabíamos o que estava para acontecer.
Os problemas renais dele vinham ficando piores desde o ano anterior. Os médicos disseram que ele precisava de um transplante. Nenhum de seus três filhos era compatível. Sua esposa, vivendo num mundo de fantasia, nem sabia o que estava acontecendo. Então, veio como uma piada; meus exames mostraram que eu poderia ser a doadora. Eu, a amante, a intrusa. Irônico.
Ele nunca me prometeu nada. E eu estava perfeitamente feliz daquele jeito. Por um lado, eu tinha mais que ela. Ele não podia se separar, não com a doença tomando conta da sanidade e saúde dela tão rápido. Ele era um homem bom. E eu tinha seu amor, atenção, seu tempo. Tudo estava bem. Por vinte e sete anos, lidamos com tudo – a família dele, a minha, o julgamento da sociedade. Mas estávamos bem.
Nunca o deixei durante o tratamento. Quando soube que eu poderia ser a doadora, não hesitei. Fizemos a cirurgia e dei um pedaço de mim a  ele. Parecia tão natural, a coisa certa a fazer. Me recuperei muito rápido, mas ele teve complicações. Fizeram tudo o que podiam, mas ele não melhorava. Ele lutou pela vida por mais de um mês, mas todos sabiam que seria inevitável.
Não fui ao funeral. Sofri sozinha olhando para as flores desabrochando no nosso parque favorito. Por um momento, me senti perdida. A vida como eu a conhecia tinha acabado. Eu escolhi viver longe da minha família e perto dele. Não tive filhos. Estava sozinha. No entanto, depois de tanto tempo, aprendi muito com ele. E é isso que vai me levar adiante. Ele me ensinou a não me preocupar com o amanhã, porque se preocupar com o hoje era o bastante; e a não permitir que minha felicidade dependa de algo ou alguém. Com ele, encontrei alegria dentro de mim.  Estava feliz por termos tanta história, por ter feito tudo o que pude para ajudá-lo e por ter acabado. Ele não sofria mais. Nem eu. 

Ana Elisa Miranda

Texto inédito :) Não está no livro Qualquer dia desses (Lançamento dia 23 de dezembro na Loja Maçônica Luzes da Fraternidade e Justiça às 20h)

Friday, October 23, 2009

A quarta estação

Saí do aeroporto e podia ver minha respiração e a de todos em volta. Havia blocos de gelo pelo chão e no dia seguinte nevou sem parar. Tínhamos que ir de um prédio a outro no campus onde estávamos tendo o treinamento e, em menos de dez minutos a neve já tinha derretido pra dentro da minha bota, eu já não sentia direito as orelhas, os dedos, o nariz estava vermelho como um pimentão e os lábios ressecados.
A primeira vez que vi neve foi inesquecível. Estávamos andando em direção ao refeitório quando vi umas coisinhas minúsculas dançando e brilhando no ar. Durante a aula, eu não conseguia tiarar os olhos da janela, porque a neve não parava de cair e tudo estava ficando branco. Eu estava maravilhada. E assustada. Logo os caminhões vieram tirar a neve das ruas e estradas e a vida seguia normalmente, naquele frio anormal.
O frio dura muito tempo aqui. Teoricamente fevereiro é o último mês do inverno, que dá lugar à primavera. Mas só consegui abrir mão das jaquetas e casacos no fim de abril. Os dias ficaram malucos: chuva num instante e no outro o sol mais brilhante que já vi. As pessoas começaram a jardinar. Falando sério, nunca vi flores tão lindas, tão vivas! As árvores, antes mortas, sem nenhuma folhinha sequer, agora estavam cobertas de flores. E os carros amanheciam cobertos de uma coisa verde – que depois descobri ser pólen. E todo mundo parecia ter alergia, menos eu.
Em junho começamos a usar short, chinelo, filtro solar, ir às praias e piscinas. A alegria e animação era palpável. A temperatura subia um pouco, o sol dava o ar da graça e todo mundo já estava fora de casa, correndo, passeando com o cachorro, tomando sorvete ou lendo um livro no parque. Os fins de semana eram cheios de eventos ao ar livre, shows, feiras, festivais. Os dias eram longos, o sol nascia antes das 6 da manhã, com toda força, e o pôr do sol era às 8:30 da noite. Impressionante.
E enfim cheguei ao fim do ciclo: o outono, a tristeza antecipada pelo inverno. Mas é tão lindo! Árvores douradas, alaranjadas, vermelhas, amarelas... chão, carros, tudo coberto de folhas. Folhas, folhas e mais folhas! Chuva, ventos fortíssimos, temperaturas inacreditáveis e, acreditem se quiserem: neve. Hora de tirar as roupas do fundo das gavetas e do armário, hora de comprar mais luvas, cachecóis e meias. Hora de se preparar para mais de seis meses de frio. E compreender porque os americanos amam o (curto) verão.

(Ana Elisa)

Tuesday, September 22, 2009

Você é feliz?



E lá vamos nós de novo. Pensar sobre aquelas perguntas chatas, sem resposta, que nunca saem da nossa cabeça. A de hoje é: o que é a felicidade? Já li e conversei muito sobre esse assunto. Muita gente diz que felicidade completa não existe, que nós podemos ter momentos de alegria, de bem-estar, mas não somos felizes. Eu, por exemplo, nunca estou satisfeita com a vida. Tenho muitos sonhos e planos e, à medida que vou realizando o que quero, fico feliz, mas logo depois já quero mais. E o pior, muitas vezes eu não faço ideia do que seja esse mais. E daí vem a angústia, a crise. Sou uma pessoa dada a dramas, a grandes preocupações, a crises existenciais. Talvez se eu desocupasse minha mente de tanta baboseira, sobraria espaço pra mais felicidade. Se eu parasse de me preocupar tanto com um futuro incerto, houvesse mais satisfação com o que já é. Mas sempre me falta algo.
A gente acha que “quando eu tiver tal emprego vou ser feliz” ou “só vou ser feliz quando me casar...” “ai, mas um filho completaria tudo...” E como a gente deve se sentir no presente? O que faz você levantar da cama todos os dias? O que te dá vontade de viver? O que você enxerga quando pensa no futuro? Enfim, pra quê você vive? Acho que as pessoas foram feitas para serem felizes e, como todos dizem, a vida é tão curta, e só temos uma chance de usá-la bem.
Ás vezes penso que se eu morresse hoje me arrependeria de muita coisa que deixei de fazer, de pessoas que deixei de conversar, perguntar como vai, ou conhecer melhor, realmente se interessar por ela. Verdades que precisavam sair do peito, sentimentos que precisavam fluir, palavras que precisavam ser ditas ou escritas. Lugares que queria ter visto.
Então sou uma aprendiz, venho me ensinando essa pequena lição todos os dias, um dia de cada vez. Ser feliz, estar em paz, viver aqui e agora. Carpe Diem!

Wednesday, September 9, 2009

O casamento

Não se casaria. Nunca cometeria tamanha asneira. Casar-se? Estruturar toda uma vida ao lado de alguém para vê-la ruir pelo quase inevitável divórcio? Ver o encanto desaparecer após os primeiros três ou cinco anos... e ver seu casamento sendo arrastado por longos e preciosos anos de sua vida como fizeram seus pais? Acordar ao lado da mesma pessoa todos os dias, toda descabelada, cara amassada e sem escovar os dentes? Ver seu lindo namorado - agora marido - ficar mais gordo a cada dia que passa, tomando cerveja e assistindo futebol aos domingos? Ver-se transformada ao mesmo tempo em empregada doméstica, mãe do próprio marido e amante sensual? Preferiria o simples papel de namorada. Ou de nada. Estaria muito bem sozinha. Obrigada.
Certa vez leu um negócio mais ou menos assim: não me caso, porque não preciso. Tenho três bichinhos em casa que substituem perfeitamente um marido: um cachorro, que rosna de manhã, um papagaio, que fala palavrão o dia inteiro e um gato, que volta de madrugada para casa... Triste realidade.
Tentava se lembrar se chegou a conhecer algum casamento realmente feliz... Não lhe ocorreu absolutamente nenhum. Alguns andavam até mais ou menos, mas nada que imite a felicidade mesmo. Amor? Tentava imaginar entre quais brigas - ou contas a pagar - este belo sentimento havia se perdido. Afinal, o que acontece com as pessoas quando colocam aquela aliança no anular esquerdo?
Este seria o século em que a família seria destruída. O que aconteceu com aquelas famílias grandes, unidas e felizes? O que aconteceu com as bodas de prata, ouro, platina?
Formar uma família... Ter filhos... Primeiro eles te deixam gorda e feia pra sempre e seu marido não te deseja mais como antes. Depois eles choram a noite toda e acabam de vez com a sua vida amorosa. Depois ainda te chamam de antiquada e careta pelo resto da vida e fazem exatamente o contrário do que você tenta ensiná-los.
Tinha pavor de tudo isso. Amava sua vida de jovem solteira. Realmente, tinha nascido pra ser titia. Nunca cometeria tamanha asneira.
Mas então, o que mudou? O que aconteceu para ela estar ouvindo aquele discurso “na alegria e na tristeza, na saúde e na doença até que a morte os separe?” e dizendo um sim diante do padre neste exato momento? Ora, no fundo, no fundo, toda mulher sonha em entrar na igreja de véu e grinalda, em ter seu “lar, doce lar”. E, afinal, ela estava amando... e havia pressa em se casar antes que a barriga começasse a crescer.
(Ana Elisa)

Monday, June 29, 2009

Por que não solidão?




Uma pessoa deveria ter o direito de se isolar sem ser rotulada de “estranha”, ou “antisocial”. Afinal, qual é a urgência em sair, em curtir, em “aproveitar” a vida? Não posso aproveitar minha vida em minha própria casa? Livre do câncer de pele, da alergia ao pólen, das multas de estacionamento, da ressaca, das bactérias. E no fim das contas não sou só “eu”, sou eu e meus livros, eu e minha televisão, eu e meu computador, eu e meus DVDs, eu e minha cozinha, eu e minha cama, eu e meus pensamentos incontroláveis.
Ficar sozinho em casa não é problema. Problema é ficar preso no trânsito, nas filas quilométricas. Problema é ir em banheiro público, comer algo que você não sabe de onde veio e como foi preparado. Dar entrada gratuita a todos os tipos de germes existentes: isso é problema.
Mas devemos ser sociáveis! Devemos manter contato com as pessoas, ter um milhão de amigos, senão você não é normal, não é feliz. Satisfaço minha cota de sociabilidade usando o telefone, a internet e o correio, muito obrigado.
Todos os dias às seis e meia da manhã levanto da cama, vou ao banheiro, desço as escadas, aqueço uma tijela de leite no microondas, misturo dois tipos de cereal, assisto às notícias enquanto como, tomo um banho, me visto e saio para o trabalho. Enfrento o tráfego, enfrento o chefe, a sala minúscula que ocupo, os colegas mal humorados, as refeições apressadas… todos os dias. Chego em casa, tomo um banho, assisto tv, vou dormir. No fim de semana tudo o que quero é descansar em paz. Telefone toca, não atendo. Alguém bate na porta, finjo que não estou em casa. Tenho sido feliz assim, exatamente assim: estranho e antisocial. No momento não preciso de mais nada. Principalmente de críticas e palpites.

(Ana Elisa)

Saturday, April 18, 2009

Este momento

Você já parou para pensar que neste exato momento alguém em algum lugar no mundo está escrevendo sobre o que os outros podem estar fazendo naquele momento, enquanto outra lê um jornal, coça o nariz, assiste tv, estuda para a prova de anatomia (ou geografia, inglês, química, fonética, física, historia, psicologia, literatura, matemática, antropologia, bioquímica...). Alguém aí do seu lado pode estar tocando violão, navegando na internet, sorrindo, chorando, brigando, dormindo, te beijando, comendo um sanduíche, espirrando, tropeçando ou ate falando mal de você. Alguém, em algum lugar deste planeta (ou fora dele) pode estar se casando, se separando, tendo um filho, encontrando o amor de sua vida, nascendo, morrendo, viajando, dançando, trabalhando, roubando, decidindo onde vai passar as férias ou o futuro da nação. Enquanto isso, outros tomam banho, batem papo, assistem novela, explodem bombas, fazem orações, caminham, sentam na praça, passam batom, apanham, preparam o jantar, esperam o namorado, comemoram, lamentam, fogem de casa, sonham, tiram fotos, costuram, fazem caretas, sobem e descem escadas. Colocam silicone, cortam os cabelos, gritam, cantam, dançam, tomam veneno. Mulheres fazem as unhas, escovam o cabelo, ficam grávidas, menstruadas, se depilam, se decepcionam, se maquiam, vendem seus corpos, cuidam da casa, matam seus filhos, reclamam da vida, amamentam, são promovidas, são amadas. Crianças, brincam, pronunciam sua primeira palavra, choram, mamam, aprendem a andar, a ler, a escrever, desenham, correm, pulam, se balançam, fantasiam, pedem colo, trabalham, passam fome, provocam encanto, piedade. Do outro lado do mundo alguém pode estar te esperando, andando de bicicleta, de carro, de avião, de moto, de patins, skate, asa-delta, pára-quedas, caminhão, ou simplesmente a pé, olhando pro chão, colhendo uma flor e oferecendo-a à pessoa amada. Ao mesmo tempo, o seu vizinho ali do lado conta uma piada, solta um pum, frita um ovo, atende o telefone, mata uma barata, escova os dentes, pinta um quadro, quebra um copo, admira o pôr do sol, toma sorvete, pede carona, solta a voz num karaokê, faz uma surpresa, pula um muro (ou uma cerca), faz massagem, rega as plantas, passeia com o cachorro, espera o ônibus, limpa os óculos, faz xixi, masca chiclete, salva o mundo, tropeça na pedra que havia no meio do caminho, machuca o joelho e solta um palavrão, arranca um dente, escreve um livro, vai ao cinema, dá um show, gasta dinheiro, empresta dinheiro, ganha dinheiro, pede dinheiro, dá dinheiro, vira pro lado e fuma um cigarro, dança uma valsa, faz aniversário, arruma o armário,enterra um parente, faz fofoca, pede perdão, se abraça, sente saudade, ódio, frustração... E você aí, vendo o tempo passar e reclamando da falta do que fazer!
(Ana Elisa)

Monday, March 30, 2009

I'm really in the mood for this one today...

Alma gêmea

Percebera que de uns tempos pra cá os amigos não discutiam outra coisa. E não é que fossem um bando de infelizes e carentes de plantão. Achavam apenas que este era um dos grandes mistérios da humanidade, depois do “de-onde-viemos-porque-estamos-aqui-e-para-onde-vamos?”.
Por que as pessoas se divorciam tanto? Por que não permanecem juntas, tendo filhos, netos e bisnetos para um dia, velhinhos, tirarem uma daquelas fotografias em que todo mundo se espreme para aparecer?
Por que as pessoas hoje são tão egoístas, só pensam em suas carreiras, seu futuro, seu dinheiro? São tão estressadas e ansiosas, não têm tempo nem pra prestar atenção nos outros!A ala conservadora, que ainda possui um fio de esperança e romantismo, prefere acreditar que existe sim a tão falada alma gêmea. Só não sabem onde ela se esconde. Vivem uma busca incessante por aquela pessoa que os completa e chegam a olhar pra desconhecidos na rua e pensar: Será que é você?
Alguns defendem a ideia de que é simplesmente impossível. Se tiver que existir uma mulher para cada homem ser feliz, alguém lá em cima não sabe fazer conta. Esta é a teoria da ala liberal, dos que já desistiram do amor.
Certa vez resolveram fazer um estudo de caso rigoroso por que a alma gêmea de ninguém ali tinha aparecido ainda. Ou tinha aparecido e ido embora de vez. A primeira cobaia foi a Carlinha. Na adolescência o primeiro namoradinho foi enxotado de casa pelo pai dela. Mau começo. Alguns anos e casos sem importância depois, namorou exatamente um ano e terminou com o rapaz só porque ele esqueceu o aniversário de namoro e foi assistir a uma final qualquer de futebol.A Vera era exigente demais. Nunca fixou um relacionamento. Uma vez era porque o cara torcia pro Cruzeiro e ela pro Atlético, outra era porque ele gostava de jiló. Outro lá ouvia música sertaneja no volume máximo. Teve um que calçava 36. “Pés de moça”, dizia ela. Uma vez, um garoto de 17 anos se apaixonou por ela. Mas tinha 17 anos, ora! Uma vez, ela se apaixonou perdidamente. Mas ele tinha 43 e era casado.
E discutiam:
- Mas tem que existir alguém! Nós temos que saber é procurar!
- Olha só, pensa comigo: existem milhões de homens no planeta, certo? Certo, mas se a gente descontar os gays, os sacerdotes e seminaristas, os casados e comprometidos, os criminosos, os menores de 20 e maiores de 50, os galinhas e os da categoria insuportável, nossos amigos, primos, tios, irmãos, pais, avôs... Sobra o quê?Para os homens é supostamente mais fácil, por causa da oferta. Mas a maioria deles é liberal. As mulheres andam migrando pra ala liberal ultimamente, mas por trás deste discurso de independência ainda sonham com marido, cinco filhos, cachorro e papagaio.
Argumenta-se ainda que você mude com o tempo e suas exigências em relação ao outro também mudam. Por isso, não é uma única pessoa que vai te satisfazer pelo resto da vida.
Uma noite na casa do Léo, chegaram à conclusão de que seria impossível concluir alguma coisa desse debate. Tudo só não terminou em pizza, porque a pizza já tinha acabado. E o vinho também.
(Ana Elisa)

Saturday, March 21, 2009

Qualquer dia desses

Qualquer dia desses eu vou sair por aí. Chutar pedras na rua e perguntar: “O que foi? Nunca me viu?”. Vou sair por aí e não vou sorrir pra ninguém, nada de boa tarde, boa noite, bom dia, oi-como-vai-tudo-bem-obrigado. Porque nada vai estar bem quando eu sair por aí assim. Qualquer dia desses eu vou gritar com você na rua, eu vou mandar você para aquele lugar, porque de vez em quando dá vontade, viu. Qualquer dia desses eu vou sair por aí e andar no meio da rua, os carros que desviem! Vai começar a chover e eu não vou me esconder, não. Eu vou é cantar a noite toda na rua até você chegar e me abraçar, porque de vez em quando é bom, viu.
Qualquer dia desses eu vou sair por aí, vou bater na porta da sua casa e te levar comigo. A gente vai embora daqui e nunca mais volta. Ou volta se der vontade. Vem, vamos logo! A nave está esperando e a lua está cheia. Um dia desses eu ainda paro o relógio da vida e todo o tempo do mundo vai ser nosso. Não se preocupe, não haverá mais trabalho, chefe, prazo, telefone, família, vizinhos. Qualquer dia desses só haverá nós dois. Eu e você, você e eu. Se for só eu não dá certo. Então se prepara, porque qualquer dia desses eu te pego pra mim. E não vai ter mais jeito, você vai ser meu pra sempre. Qualquer dia desses.
Vou sair por aí um dia desses e entrar num ônibus. Vou chorar e rir ao mesmo tempo e ninguém tem nada a ver com isso. Vou parar em um lugar que nunca vi na vida, mas que tenho certeza que é o meu lugar. E vou estar sozinha, porque esse lugar é só meu. Vou pintar os lábios e as unhas de vermelho, pra combinar com o vinho. Vou sair e vou ver o sol nascer dentro de mim. Daqui de cima a vista é linda demais. E você não vai estar comigo. Porque teve medo.
Um dia... pode ser amanhã, ou depois, ou depois... vou comer um quilo de sorvete sozinha, pensando em você. Vou explodir e em cada canto do mundo vai ter um pedacinho de mim. Procurando por você. Vai ficar mais difícil, né?! Qualquer dia desses você vai sair por aí e não vai mais voltar. Porque você me encontrou. Qualquer dia desses... hoje não.
(Ana Elisa)

Saturday, February 28, 2009

Medos...

Tinha medo de...
Meu medo era ir pra escola. Não sabia o que se fazia lá naquele lugar. Não sabia o que iria acontecer comigo. Não sabia nada. Tinha medo. Até que um dia, fui. E nunca mais parei. Passei a ter medo de algumas professoras, aquelas que tinham cara de brava. Me davam pesadelo à noite. Ficava quietinha durante a aula, pra não chamar atenção. De vez em quando, ou melhor, quase sempre, eu tinha medo de fazer prova, de tirar nota ruim, de dizerem que eu era burra. E eu não era burra. Só medrosa. E chorona. Tinha medo de chegar atrasada, de fazer pergunta na aula e, principalmente, eu tinha medo dos meninos. E das meninas maiores. Essas foram minhas únicas preocupações por um bom tempo.
Eu tinha (e quem não tem?) medo de escuro, medo da noite. Quando ia dormir, apagava a luz e corria depressa pra cama. Uai, vai que tem alguma coisa lá em baixo. Eu é que não ia arriscar. Me embrulhava toda na coberta e ficava quietinha até dormir.
Morria de medo de ir à parte funda da piscina, de balançar forte, de subir na gangorra e cair, me machucar. Tinha medo de gente doida, de bêbado, de fantasma, mulher de branco, tarado, ladrão, bicho papão, cuca, lobisomem. Hoje tenho medo de gente normal. Até de mim mesma.
Temia não passar no vestibular. Esse foi um dos maiores nos últimos anos. Depois veio o medo de não arrumar emprego. E o que sempre está aqui e sempre estará. O medo do futuro, do desconhecido. Nunca se sabe o que a vida lhe reserva lá na frente. Isso dá uma insegurança. Você acha que controla alguma coisa, mas você não manda em nada.
Hoje os medos evoluíram. Um grande medo é ficar sozinha. A solidão assusta, não acha? Também tenho medo do tempo. De ficar velha. Tenho medo de engordar. Medo que meus filhos me chamem de coroa, de careta. Medo de me tornar uma adulta mesquinha, rancorosa e ranzinza. Tenho medo de ficar doente, de ficar careca. Tenho medo de não poder viajar nas próximas férias.
E você? Tem medo de quê? Você pode até ter medo de lagartixa, só não tenha medo de viver. Nem de morrer. Não tenha medo de amar, nem de ser ridículo. Não tenha receio de sonhar. E realizar seus sonhos. Grite, ame, cante, dance, corra, ande na montanha russa, vá à parte funda da piscina, pergunte, curta o escurinho. Não tenha medo da vida. Tema o arrependimento.
(Ana Elisa)